A noite está fresca, gosto da idéia de passear no quarteirão. O trajeto se divide em uma avenida principal e suas adjacentes, que estão bem escuras, mas os focos de luz dos postes me permitem notar a calçada quadriculada, composta de ladrilhos pretos e brancos, lembrando um tabuleiro de xadrez. Será que somos as peças de um jogo? Se assim for, de acordo com a minha posição no grupo, calculo que eu sou um cavalo. Um posto invejável, portanto comporto-me como tal. É preciso andar em ‘L’, e espero que os outros não percebam meus movimentos que executo com a concentração máxima necessária. Os da frente não podem olhar para trás, tampouco recuar, são meros peões. Deparo-me com um lixo, mas não é um lixo qualquer. Há um travesseiro sobre os demais entulhos. Está quase novo exceto por uma pequena nódoa vermelha. Fico estarrecido, mas tenho que seguir o fluxo. Como podem ter jogado fora aquele travesseiro semi novo? A idéia de um travesseiro novo no lixo não sai da minha cabeça, como pode ser possível? Não entendo, absolutamente, a não ser que… É isso, só pode ser isso.
O nome dela é Carmem, cabelos negros e lábios voluptuosos, costuma usar batom vermelho. Sedutora, do tipo Femme Fatale, arrebatou o coração de um pobre rapaz, recém chegado na cidade grande, aposto que o nome dele é Armando. Extasiado pela noite anterior, o jovem Armandinho acorda e não vê a sua amada. Ela fugiu, usou-o e jogou fora. Desconsolado, vagou pelas ruas à procura dela, coincidentemente, as mesmas ruas que passeio agora, ele viu o mesmo posto de gasolina, vendida a R$ 2,19, mas de que importa o valor do gasolina se tem um homem que sofre por uma paixão fatídica? A única lembrança daquela noite: o travesseiro com a marca de batom. Mas ele não poderia suportar vê-lo sem rememorar o dia em que fora feliz, portanto teve de arremessá-lo no lixo para apagar de sua memória a insensível que roubou seu coração. Mas você está viva em mim, Carmenzita! Eu irei até os confins do mundo para te achar. Todo o grupo está à frente, fiquei para trás, mas eles são peões a me defender. Assumi o posto de Rei, venha ser a minha rainha, sei que em algum lugar você estará a me esperar, olhos oblíquos a me fitar e negros cabelos ao vento. Fico estacado, preciso reorganizar minhas idéias, é necessário deixar o grupo em nome do amor, preciso resgatar o travesseiro e encontrar a dona daquele batom. Fico para trás, despercebido, com passos precisos vou atrás do travesseiro a fim de sorver o perfume selvagem de Carmenzita. Uma forte emoção se apodera de mim quando revejo o travesseiro. Olho para os lados, não vejo ninguém, então posso tocá-lo. Agarro-o comovido, e sinto seu odor. Não é cheiro de mulher tampouco de perfume selvagem. É apenas o odor que deveria ser: lixo. O alarme de um carro dispara, despertando-me de meus devaneios. Meu império ruiu, a concreta realidade: não sou rei, Carmem não será minha. Talvez não more nenhum Armando naquela rua. E observando a mancha de perto parece… Oh não! Sangue foi derramado. Eu não quero ser testemunha de nenhum crime, é certeza que Armando matou Carmem, ele não poderia suportar! Nesse instante vejo uma entrada pro nada e passa pela rua um homem com uma bicicleta de 2 andares, Deus, isso é assustador. Corro freneticamente, consigo alcançar o grupo e misturo-me sem chamar atenção. Permaneço em silêncio, olhando apenas para o chão até o final do trajeto. Ser rei requer muita responsabilidade, sigo o caminho andando em “L”.



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